Quedas que repousam

Tomei banho de chuva, que molhou as plantas, que inundou a terra. Depois, com febre, o pesar da vida, as coisas como são, os olhares para baixo. Quando levantados, enxergam árvores, casas, céus, abismos - os necessários. O banho de chuva foi necessário também, para a queda, a febre, a dor, a fragilidade. Todo mundo tomou banho de chuva junto, embora, nem todos tenham se molhado. A chuva molha todo mundo, só não molha quem tem telhado. Mas ela não deixa de cair na cabeça de ninguém, repousa ali. É como a neve, quando de branco tudo inunda. Ah, a neve... a chuva... Tenho prazer pelas coisas que caem: a chuva, a neve, as folhas. As tristezas que derrubam - mas que ensinam que nem tudo fica embaixo e que, para cair, é preciso ter se levantado e que, para se levantar, é preciso ter caído. E assim, caio com as folhas, com a chuva, com a neve (no coração), caio com as temperaturas da vida, caio com o humor, com o silêncio alheio, caio com as distâncias, caio com as febres e caio de amor. Caio também por nem sempre saber o que fazer, como fazer. Caio de tanto tentar e caio mais ainda quando desisto. Caio e levanto, caio de novo e levanto outra vez. Entre quedas e ganhos, vou, vagarosa, entendendo, não concluindo, mas entendendo... que tudo cai. E que isso inevitável e que, de uma forma de outra, é essencial. 

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