Tarde
Às doze horas ou antes dela, o vazio consome. A dúvida se irá ou não continuar a viver. A sensação de uma calma inexistente, uma calma em que fecha os olhos como quem recebe um espírito e escreve. Escreve as dores do que não tem, as dores de querer o que não se tem, as dores de não querer dor do que se tem ou não se tem, ou se não tem, que não haja dor. A dor é... há. "Tudo é dor e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor." O sol que faz lembrar todos os dias que o caminho é um só...mas que caminho é esse? O caminho está lá também... ou aqui.
É preciso superar a morte e transbordar a vida, não se pega toda a areia com as mãos. Não se pode ser outro e pode-se ser quem quiser. O corpo enfraquece com o tempo e o tempo enfraquece o corpo, seja o mais quente, o mais frio...
A respiração que tenta conter o pensamento, ela que segura as lágrimas e o dia... os olhos que olham longe, que vêem apenas brisa, que querem apenas sombra, que dançam no escuro, no silêncio...
Um escrita sem a menor magia, uma escrita feita de suspiros, uma escrita que se debulha em lágrimas...
Uma escrita que chora em cada instante, um ser que se perde e se encontra a todo instante... um ser tão cheio que se esvazia, que se preenche do nada que habita em tudo e do tudo que não se pode habitar...
Tudo isso às doze horas, ou sempre, ou à vida, no limiar do dia, no entremeio do que passa.
E no entremeio, o ser que não consegue sair, que precisa se rasgar de si! Rasgar de si as doze horas, rasgar de si o que está no entremeio do nada que é a incompreensão de tudo. O tempo que paira com uma nuvem de chuva, como uma lua de chuva, com uma aridez, com uma surdez, com uma nudez, pequeno, curto, longo, distante, cheio, ocupado, confuso...
Uma escrita de tempo, de frios, uma escrita que pede, que implora...
Uma escrita que quer o tempo, um tempo que quer aquele tempo, um ser que quer o frio do tempo...
E o despertencer? Despertencendo...
Às doze horas e a sensação de não ter fim ou de não fazer sentido, que o sentir não faz...
A dor em ser poeta e mais nada, a dor em sentir e mais nada, a dor em ser e existir...
A dor das doze horas...
O silêncio, a solidão... e o que mais? Esperanças? Tempos? Dúvidas? Lágrimas... porque ainda se é... no instante em que se é, "cada coisa tem um instante em que ela é", e assim é...
Escrita de escrita. Escrita das doze horas. Escrita cheia de doze horas.
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