A madrugada é linda
Demorei algum tempo para assumir certas formas de escrita, para assimilá-las em meus trejeitos de interpretar. Falta-me café suficiente para descrever, agora, o que tornou-se novo sentido.
Mas hoje quero falar da noite, em uma nova vez. Quando anoitece, muito acontece. Mas quando madruga, essa noite ainda mais profunda, muito ainda acontece mais. A poesia que vem tem um sentido dos tremendos, lembranças que escoam pelo ralo dos olhos, sentidos que esvoaçam, que transbordam as palavras que se perdem.
Existe uma coisa no sentido da noite que é quase impossível captar: o silêncio com ruídos, os cães que latem longe, corujas que voam agitadas, morcegos que apitam aguçados, os bêbados que gritam de longe, nas ruas, o Dire Straits que toca outra vez, os murmúrios de conversas que se escutam de longe...
Tudo ainda envolve o silêncio, esse espécime desconhecido em sua essência. O silêncio humano é este: com ruídos e rumores de sons, de músicas, de palavras. Queria ver o silêncio real, mudo: sem ruídos, palavras ou pensamentos que enevoam a solidão do silêncio.
Mas ainda assim é tão belo, o silêncio. A madrugada é tão poética. Seja para os silenciosos, seja para os barulhentos. Existe sempre um silêncio a cada um deles ou de dentro de cada um deles. Cada um provoca um silêncio diverso e tudo torna-se um silêncio uno. A beleza da madrugada: parece infinita em seu silenciar, parece transbordar murmúrios, cordas que anoitecem qualquer ser tornando música. O belo, então, do silêncio, é seu musicar-se? Musicar-se...
Muito se fez de barulho e no fim é um silêncio que fica, o silêncio dos murmúrios.
Pouco me importa o que seja absoluto no silêncio, quero o que capto nos instantes que nele habitam.
Eis.
A madrugada é linda por isso.
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