Quarta-feira, um sol e lá
Tá doendo cada vez que lembro de ausências e desencontros. Cada vez que me esforço em lembrar do melhor, de quando houve amor, de quando foi tão bom. Tá doendo cada vez que tento entender o motivo mais forte para se apagarem coisas tão fortes. Tá doendo não entender.
A gente vai se fazendo de ausências, vejo o quanto as pessoas vão vivendo com elas como se nem existissem, como se não fizessem falta alguma. Talvez até façam, mas quem diz? Quem assume? O orgulho não deixa, né? Claro, claro, existem aqueles que não fazem falta porque seu tempo já foi. Existem os que passaram por nós, deixaram, marcaram, mas foram, como tomar um caldo no mar. A gente aprende - ou pelo menos tenta - a nadar de novo, a boiar na água. E no fim aprende que foi necessário, que sem aquilo muito não seria possível.
Mas e as ausências que não queríamos? Essas ausências que doem e continuam a doer todos os dias, na lembrança, na possibilidade, na espera, na dúvida... sempre na dúvida? Essas ausências de um tempo tão bom da vida...
O resultado, então, passa a ser conviver com a dor até que ela não doa mais. Assim, como foi com as outras. Dor que serve para aprender. Aprender que a vida não é isso, que não é ficar entre dores todo o tempo - embora seja. Aprender que a gente pensa que aprende e não aprende é nada - só as vezes, um pouquinho, só um pouquinho, sabe? Conviver com a dor serve para, ao menos, lembrar-se de não repetir, de não ir atrás, de não percorrer o mesmo caminho. Não é orgulho, não. Porque as vezes a gente até volta pelo mesmo caminho, percebendo que o caminho não é o mesmo. É aprender um pouquinho a se amar e se ver na vida como pessoa, independente do restante. Porque, afinal, nos colocaram aqui, não? E por mais que nos sintamos menores, muito, muito, muito pequenos e errados, e errantes, e que fazemos mal aos outros... será que fazemos mal aos outros tanto assim? Será que não são os outros que lhes fazem tão mal assim? Assim como houve um tempo em que fizemos mal a nós mesmos?
Sim...
O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, estava bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.
Antecipação? Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.
Bem sei: a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.
Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efectivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.
Carinhos? Afectos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.
Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...
O dia deu em chuvoso.
Álvaro de Campos, Trapo. In Ficções do Interlúdio, p.182.
O dia deu em chuvoso sempre em mim. Mas vivo o sol que o dia me traz. Com amor, sabendo que a vida em que sou é apenas esta. E que seja amor a vida!
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