Mudanças


Por que haveria eu de ser a mesma se já não me sou como ontem? Então, como poderia deixar rastro comum se sou multiplicidade, movimento, tempestade? Inundação. Chuva. Sombra. Perpétua desordem. Desorganização profunda. Sou nada do que falo e sou tudo do que penso em um plano inexistente, de tão fugidio. Mas impreciso, porque quero as palavras. E já não me importo com que razão. Não há razão pois sempre sorrirei no frio da janela e sempre dançarei na chuva e na escuridão sombria da luz que me sombreia.
Ausente o que antes fora cultivado, não.quero domínios, quero des-domínios e descompassos de chuva, quero a movimentação aguçada de ideias não definidas e o que menos, menos, menos quero é aprovação. Ora, mas que peculiaridade no escrever, essa singeleza em sombrear de cinza um pensamento  encoberto de névoa, tudo fica mais decadente e, assim, sumido, sumiço, esparso, tentativa. Pálida palavra, pálida gota de chuva, desconhecida nuvem, desconhecida tempestade, gelo em forma de existência, felicidade de inverno  outonal nesta quantitativa espera por existir.
Em milésimos passa, em milésimos acaba o instante, o sentido, a vontade, em milésimos morre, em milésimos de segundo se dorme.


Cai, chuva. 
Que lhe caio bem.
E caibo.

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