Faz tempo que não vejo o tempo assim: este cinza do qual vivo redescobertas. Este nublado que me acolhe como ninguém entenderia, coisa de ser sombra, de falar só. Desta vez não fui eu, não fui eu quem pedira chuva, ela foi esperada por muitos de nós. Mas confesso que  ainda a vejo tímida e medrosa, apesar de dar nuances enquanto dormimos. Mas aí, quando acordamos, ela já foi embora. Mania de sombra? Mal deixa rastro, esta ainda deixa, mas pouco se vê seu rosto. 


transpenumbra
                                                         
                                                   
tempestade
que passasse
deixando intactas as pétalas
você passou por mim
as tuas asas abertas
passou
mas sinto ainda uma dor
no ponto exato do corpo
onde tua sombra tocou
que raio de dor é essa
que quanto mais dói
mais sai sol?


Paulo  Leminski

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