Fim de tarde
(I)
Sim, o de sempre: café doce, vista cansada, sede, vontade de ausência. Já não podia adormecer, há horas para tudo, pensa. Uma inquietude vibrante, um zelo pelo pensamento de dar outra gastura. Aquiete-se, aquiete-se, pensava. Está acabando, está terminando, vai acabar, vai terminar, vai chegar ao fim - e vai começar tudo de novo. O que posso fazer para melhorar tudo? Será que preciso revolucionar-me, ou escrever até que encontre todos os problemas? Será que a escrita me faria isso? Será que todas estas coisas que faço para alcançar o inalcançável e a espera de se responder dúvidas e solucionar problemas me farão chegar a algum destino - senão o mesmo de sempre, o de se ter sempre mais dúvidas? Mas parece que estou vivendo uma vida que não é minha, me sinto como se fosse uma pessoa que estivesse sobrevivendo a uma espera de futuro, algo que nunca chega, além das coisas que sempre voltam. Vem cá, todos têm dessas coisas, é? Nem domínio do que digo, já não tenho. Hora pareço que estou falando a você, hora pareço que digo a mim, ora. Hora estou apenas a escrever para ninguém, ora. Depois vem a parecer uma espécie de loucura imbricada à realidade - porque toda loucura é assim, ou nenhuma - e aí a realidade me parece fugidia demais para ser comparada à loucura porque esta as vezes parece ser mais sã - do que eu. Está ela aqui, eu aqui, nós, este eu-você-que-narra esta coisa que nem sei do que chamar, se literatura, se refúgio, se sinopse de um mim-eu-que-não-se-sabe, esta breve catarsextraordinária de ontem, umas coisas escritas, assim, de que se tem vontade e lembrança. Mas nossa, que alívio dos grandes! Já havia me esquecido de que não há compromisso para viver senão mesmo o de estar vivo, daí, depois chegam as outras coisas (essas coisas que a vida traz, como trabalhar, cuidar, escrever, amar). Ainda pensa que viver é o mais doloroso e tardio, porque nós fazemos todas as outras coisas antes mesmo de viver, embora precisamos mais do que tudo de estarmos vivos para fazer essas coisas todas - e olhe lá se, talvez, nem isso. Bem sei que não sei nada sobre céu e os depois, os depois plurais, os amanhãs e os daqui vinte anos, e a velhice - que dá um medo tremendo. Deixa te dizer uma coisa: acho que escrever é a melhor coisa que existe pra mim, é a coisa melhor que se tem pra fazer quando não se quer confiar em ninguém ou não se pode. Escrever faz bem até pra quem não sabe o que é alma. Porque é como tomar um café num fim de tarde vazio, em que só se existe a boca e o café, a folha e os dedos, e os olhos, e as sensações de cada um, e o momento, e o instante - todos únicos e singulares em suas explosões ínfimas de não-conseguir-saber-dizer. É muito isto: um começar sem ter volta, sem nem saber, um morrer ali, uma progressão de morte que acaba onde começa e acaba de novo e começa novamente e termina mais uma vez, morrendo. E assim vai sendo e vai, e é. Parece também com um coração batendo por último num corpo, talvez corpo já pedra, mas que ainda tem coração. Tem aos montes por aí. Gostaria de desaparecer, tenho que lhe dizer. A vida é uma coisa, assim, que me cansa tanto, quando penso nela e me lembro que assim, ela vai terminar e não poderei mais tomar conta de eu-nós-você-narrador-pessoa-imaginação-alguém-ingênuo. É muito que vem explodindo por dentro mas que nem sempre sai, nem sempre. Nasci para isso? Máquina de projeções, não vivo, projeto o tempo inteiro, meus instantes são ingenuidade e pureza de não saber pegá-los como os imagino. Meu corpo é consumido por uma sequência de erros que não controlo por falta de conseguir controlar a maioria das principialidades de mim - até inventar já faço. E quem não faz? E quem não pode. Sou só uma sombra, uma projeto de pessoa, um pó minúsculo contendo um universo tremendo, incalculável, doloroso, arrependido, medroso, falho, humano, desgraçado, inútil, gente. Sirvo para isso: para ser sombra, "sombra fútil chamada gente". De mim, deste eu-nós-narrador-pessoa-ingênuo-ninguém sai a desorganização toda, a simultaneidade dos impulsos descontrolados que não podem parar.
Sim, o de sempre: café doce, vista cansada, sede, vontade de ausência. Já não podia adormecer, há horas para tudo, pensa. Uma inquietude vibrante, um zelo pelo pensamento de dar outra gastura. Aquiete-se, aquiete-se, pensava. Está acabando, está terminando, vai acabar, vai terminar, vai chegar ao fim - e vai começar tudo de novo. O que posso fazer para melhorar tudo? Será que preciso revolucionar-me, ou escrever até que encontre todos os problemas? Será que a escrita me faria isso? Será que todas estas coisas que faço para alcançar o inalcançável e a espera de se responder dúvidas e solucionar problemas me farão chegar a algum destino - senão o mesmo de sempre, o de se ter sempre mais dúvidas? Mas parece que estou vivendo uma vida que não é minha, me sinto como se fosse uma pessoa que estivesse sobrevivendo a uma espera de futuro, algo que nunca chega, além das coisas que sempre voltam. Vem cá, todos têm dessas coisas, é? Nem domínio do que digo, já não tenho. Hora pareço que estou falando a você, hora pareço que digo a mim, ora. Hora estou apenas a escrever para ninguém, ora. Depois vem a parecer uma espécie de loucura imbricada à realidade - porque toda loucura é assim, ou nenhuma - e aí a realidade me parece fugidia demais para ser comparada à loucura porque esta as vezes parece ser mais sã - do que eu. Está ela aqui, eu aqui, nós, este eu-você-que-narra esta coisa que nem sei do que chamar, se literatura, se refúgio, se sinopse de um mim-eu-que-não-se-sabe, esta breve catarsextraordinária de ontem, umas coisas escritas, assim, de que se tem vontade e lembrança. Mas nossa, que alívio dos grandes! Já havia me esquecido de que não há compromisso para viver senão mesmo o de estar vivo, daí, depois chegam as outras coisas (essas coisas que a vida traz, como trabalhar, cuidar, escrever, amar). Ainda pensa que viver é o mais doloroso e tardio, porque nós fazemos todas as outras coisas antes mesmo de viver, embora precisamos mais do que tudo de estarmos vivos para fazer essas coisas todas - e olhe lá se, talvez, nem isso. Bem sei que não sei nada sobre céu e os depois, os depois plurais, os amanhãs e os daqui vinte anos, e a velhice - que dá um medo tremendo. Deixa te dizer uma coisa: acho que escrever é a melhor coisa que existe pra mim, é a coisa melhor que se tem pra fazer quando não se quer confiar em ninguém ou não se pode. Escrever faz bem até pra quem não sabe o que é alma. Porque é como tomar um café num fim de tarde vazio, em que só se existe a boca e o café, a folha e os dedos, e os olhos, e as sensações de cada um, e o momento, e o instante - todos únicos e singulares em suas explosões ínfimas de não-conseguir-saber-dizer. É muito isto: um começar sem ter volta, sem nem saber, um morrer ali, uma progressão de morte que acaba onde começa e acaba de novo e começa novamente e termina mais uma vez, morrendo. E assim vai sendo e vai, e é. Parece também com um coração batendo por último num corpo, talvez corpo já pedra, mas que ainda tem coração. Tem aos montes por aí. Gostaria de desaparecer, tenho que lhe dizer. A vida é uma coisa, assim, que me cansa tanto, quando penso nela e me lembro que assim, ela vai terminar e não poderei mais tomar conta de eu-nós-você-narrador-pessoa-imaginação-alguém-ingênuo. É muito que vem explodindo por dentro mas que nem sempre sai, nem sempre. Nasci para isso? Máquina de projeções, não vivo, projeto o tempo inteiro, meus instantes são ingenuidade e pureza de não saber pegá-los como os imagino. Meu corpo é consumido por uma sequência de erros que não controlo por falta de conseguir controlar a maioria das principialidades de mim - até inventar já faço. E quem não faz? E quem não pode. Sou só uma sombra, uma projeto de pessoa, um pó minúsculo contendo um universo tremendo, incalculável, doloroso, arrependido, medroso, falho, humano, desgraçado, inútil, gente. Sirvo para isso: para ser sombra, "sombra fútil chamada gente". De mim, deste eu-nós-narrador-pessoa-ingênuo-ninguém sai a desorganização toda, a simultaneidade dos impulsos descontrolados que não podem parar.
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