um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra
pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um
éluard um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno
poeta de província
que sempre
fomos
por trás
de tantas máscaras
que o tempo
tratou como a flores
LEMINSKI, Paulo. Caprichos & relaxos. São
Paulo: Brasiliense, 1983, p. 50.
E não é que é mesmo...
ResponderExcluirLembro-me do próprio Rimbaud dizendo, quando o lirismo, o pulsar com muito sangue, algo mais livre, rebelde, puro, o abandonou numa escrita que calou-se, que fugiu para um refúgio de silêncio:
- Devem estar pensando que fiquei todo esse tempo num estado de profunda morosidade. Porém, atravessando as camadas da indiferença, surgiu um novo sistema. Fortalecido. Rejeitando o romantismo. Abandonando a retórica.
Na verdade, sei exatamente bem o que ele quis dizer nesse discurso. Até Rimbaud, também passou pelo pequeno poeta da província, que o tempo tratou como flores... como disse Leminski.
Abriu-me nessas palavras, e tu, na tua escolha, as camadas da minha própria "provincidade".
Na verdade Thay, se eu te disser que amo as palavras, minto.
Odeio as palavras. Elas sempre se interpõe entre eu e a vida. As palavras violam tudo, as palavras e as frases lidas, escritas, sentidas até o tutano por aqui, sugam toda a seiva da Cila Viva.
Depois o que resta?
Palavras, palavras, e só as malditas palavras por ter encontrado cedo demais, só o silêncio nos ouvidos e compreensão dos outros.
Conheci uma pessoa que as amou, mais do que a mim: meu pai.
Depois me apaixonei pela primeira vez, perdidamente, por alguém que as amou mais do que a mim: alguém que nem ouso dizer o nome.
Fróids.