Ah!

Um tornado de formigamento me vem nas pernas e no estômago quando comprovo o tamanho do vazio que encontro no mundo. Filosofias baratas, filosofias feito baratas, feito pragas que não vão embora, juntando, juntando, juntando e sendo compartilhadas, sendo idolatradas; convenções que são absurdos só de serem, e mais do que isso, de possuírem os seus colecionadores espalhados, espalhafatosos, faltosos, vãos.
Ai, quem me dera escolher o que posso ver. Nem sequer dos meus herdeiros terei posição!
Mas quem me dera mesmo é que não pudesse ver por existir: não deixar de ver para não me cansar - seria egocêntrico. Mas deixar de ver porque não existe, isto sim seria um sonho.
Pois de fato não sei lidar com tais preocupações banais que se sugerem, com tanto melodrama público, tanta misericórdia narcísica exteriorizada, não sei lidar com tanto apelo alheio, a nada, a todos, a um mundo visionário, platônico, piedoso de si por tanto vazio. E é como se eu também gritasse no meio desta multidão, é como se eu me sentisse um peregrino dela: caminhada tão duradouramente vã.
Estômago esmagado, é o que me causa.
Não se sabe o destino de nada, os instantes dão conta dos destinos de tudo e todos são rejuntados para um futuro de não-sei-o-quê de aparências, de ensaios, de choros fedidos à cebola, de drama mal ensaiado, de fala mal escrita, de ato mal narrado, de história apodrecida. No fundo é um monte de produção de lixo.
O que fazer com tudo isso? me pergunto banalmente. A onda de cólera que me provoca é por minha culpa, meramente. A escolha de assistir a toda essa novela repetida é minha, puramente minha. Pelo simples fato (ou fato nenhum) de buscar motivos para ser rejunte da geração que tenta o oposto: a geração que tenta um bom uso do que é provavelmente inútil. Do que é platônico, do que é irreal, do que é puramente perfeito - no plano das idéias (somente idéias).
E em que paradoxo me coloco! Céus, como posso achar que estarei divagando sobre o que me é inútil se me coloco na metáfora "se está na rede é porque é peixe?"
Será que necessariamente precisamos nos colocar diante do que nos desagrada para afirmar sobre o que nos desagrada?

É recostar o queixo e deixar-se pensar.

Comentários

  1. Podemos ser a própria produto de lixo, e mesmo nos dando conta, não conseguimos nos desfazer da matéria que nos encobre.

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  2. Acho que podemos nos desfazer sim.
    É rever prioridades.

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  3. adorei. não consigo postar no facebook. está dizendo que é spam ou algo assim. =/

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