Morangos dândis

Tanta umidade me fez pensar em morangos. De como eles se desintegram em minha boca e como são docemente azedos. Os morangos estão à margem de mim - nos meus lábios úmidos e avermelhados. Os morangos fogem à minha poesia rotineira e transformam-se em sucos e gastrites futuras. Azia e ânsia de um vômito nos piores lugares e horas. Ah! Como me cansa falar em vômitos! Seria melhor enterrar, como um gato, a cabeça na parede dos romances. E que eu não pudesse pensar, que pudesse esquecer o instante e o agora, que pudesse e que devesse não pensar nem em nenhuma poesia inacabada que tanto aflige. Andar com os dramas é como tropeçar sempre em pedras e nunca em mares. Duvido, no entanto, que eu possa nadar nas pedras como nado nos dramas. E é desta mistura que me desfaço e desfaleço. Natações instantâneas por entre os veludos ásperos chamados de palavras (versos). É deste tudo em nada, deste nada que nada em todas as coisas que me incorporo de mim. E depois, mais nada. Mofo. Então minhas células líricas comem meus morangos que sobraram da umidade do meu ser disperso em outros seres e segregado de mim.



"Que nossa vida seja assim como o Grande Sertão: grande, mas molhada: de amor, poesia e morangos."
Para Fran 

Comentários

  1. Docemente azedos. Isto define muita coisa, se não quase tudo =)

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  2. Sua prosa(?) tem uma melodia muito agradável. As musas gostam de ti aparentemente.

    Obs.: Aqui eu com nickname de novo. André.

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  3. Vou carregar essas palavras comigo. Dentro do meu coração, e nunca estarei sem elas, porque onde quer que eu vá, elas irão comigo.

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