Lamentos adormecidos

- Quando você precisa de um abraço... e ele está longe. O que fazer? É quando você corre pela casa e só encontra vazio, o chão é frio, sua dor é um abraço ao silêncio e você é "mera causa ocasional" de uma lamentação do passado de um outro alguém. Felicidade? Quem me dera saber o que ela é. Não sei nem te dizer o que de fato existe neste mundo. Na verdade sei. Sei que estes lamentos existem. Mas... como eu estava por dizer, quando você precisa de um abraço, ele está longe,  fora do alcance... Você já sentiu isso? É desesperador, nossa. É angustiante. E você pensa: será que eu devo sentir estas coisas? Ora, pareço um mundo egocêntrico ambulante do tamanho de uma caixa de sapatos. Só que... vem à sua mente outra vez, aquela sensação, aquela sensação de tarde de semana vazia e ventosa. Aquela sensação te oprime tanto, que você mesmo, sozinho, esmaga o sol da tarde que tentou entrar pela fresta da janela, a única que havia sido aberta para lhe confortar. E de nada adianta. As horas passam, você continua vivendo sua vida, a semana acaba. Você encontra o abraço nos fins de semana. Ele te aquece, diz tudo o que você precisa sentir. Mas o fim de semana acaba e você volta a sentir-se um ninguém. Você se pergunta dezenas de vezes o que é aquilo, porque sabe que no fundo, naqueles dois ou três dias que pensou estar flutuando, ainda havia algo que lhe pesava, uma sensação sem nome, que a gente costuma chamar de dor, de ausência, de saudade, de tudo o que for ruim de sentir, tudo. É difícil demais pra te falar... por isso que eu gotejo em lágrimas. Na verdade, quando você nem sabe, eu jorro em lágrimas. Me derreto por completo em lágrimas e elas até me carregam pra longe, no fim do dia. É uma espécie de tortura que a gente escolhe ter, sabe. E fico realmente pensando de que forma tudo isso pode mudar. Sabe, penso em acordar plena, um dia. Acordar e ver beleza em minha existência, não dor. Não lamentos. Não estas lamentações de que você é obrigado a sofrer e ouvir todos os dias, de alguma forma. Eu acredito neste dia. Bem, confesso que tenho um certo medo do futuro. Você mesmo já me disse, "será que depois vai ser assim?". E eu te digo, e digo agora, que não quero. Não quero que seja assim, não espero que seja e desejo de corpo e alma que eu tenha confiança em mim, desde agora, e que você confie em mim também para que a gente olhe junto o amanhã e penetre surdamente nesta esperança, sem querer ouvir o que se foi, porque simplesmente se foi. Preciso de você como preciso de mim, mas antes de precisar de tudo em nós, preciso da minha existência sem os meus demônios e fantasmas apodrecendo a minha carne, pois é isso que eles têm feito. Imagine então, o que não fizeram ainda comigo por dentro. Você entende agora? Não há muitas explicações. Eu só posso te dizer, trocar, em palavras muitas mesmo, não há outra maneira de afastar-me disso senão encarando. E é como em um filme de guerra: há muitas mortes, há muitas dores, mas no fim, a guerra acaba. E alguém tem que vencer. E nesta guerra contra mim, quem vence, sou eu.
- Entendi, espero.

Comentários

  1. Há certas coisas que são tão nossas quanto a nossa própria carne, e dificilmente se vão. Mas é possível aprender a lidar, e melhor, aprender a fazer com que nos machuque menos, menos... Até serem uma forma de aprender certas coisas que a luz não mostraria.

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  2. Quando a gente se identifica, não tem o que nos segure! Com o peso de um narguilê na alma que vc não faz ideia... E é meio a lágrimas que a saudo!

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