Chegando o que não se enxerga
Um suspiro que se foi, que está perdido no meio da névoa e
que nunca chega por completo.
Pois sempre está às escuras do universo interior e
particularmente escondido da obsessão pela palavra posta no papel.
O que deveria ser uma epígrafe, transforma-se numa não-ela.
O que deveria ser uma chegada, torna-se uma partida cega.
Chega um minuto em que a saudade dói e não há espaço para explicações maiores que a própria dor e um instante em que o que apodrece na alma são as fugazes tentativas de prezar aquilo que nunca deveria ser prezado, que nunca deve ter nome de amor. Chega um instante das vidas que estamos fingindo-viver que é melhor esquecer tudo e lembrar do nada: o nada é aquecedor, o tudo é um corrimão sujo que apodrece nas suas mãos quando você chega em casa depois de um dia cheio e não lava nem um fio da alma. Chega um dia que: que tudo para. Chega tudo. Tudo chega quando chega o dia, aquele dia, que você quer esquecer para nunca mais lembrar que existiu naquela existência de milésimo de segundo. Chega um dia em que tudo o que chega deve ir embora e que tudo que foi embora deve chegar e voltar, deve ficar para amar. Porque amor não é momento, nem mês, nem anos. Amor é coração, é sangue; amor é alma. Amor. O amor é como a morte - queira como quiser que ela chegue. O amor não é um orgasmo de um minuto- programado, sem metáforas visionárias que só acontecem no instante-já do suor do desejo. O amor é mais do que todos os momentos juntos. Chega uma hora em que se diz: chega! Chega uma vida em que se quer viver outra e se quer estar n'outra. Chega um dia em que tudo é vômito - como hoje e ontem. Chega, chega, chega... Chega de dizer as mesmas coisas, chega de monólogos, o que importa é viver o hoje, agora, ric et nunc, agora, agora, não ontem, não três meses atrás, não um ano atrás, não dez anos atrás - ou meio minuto (infeliz) atrás. Que coisa é a vida, chega chegando, a gente nem percebe, só percebe quando escreve. Que coisa. Que admiração, que sustentação que ela nos dá, assim. Cisma, sempre. Chega-se a não cismar-se, chega-se a não aproximar-se. Chega de escrever, ora, ora! Chega de expor, expor o que não presta! É verdade que o poeta chega a ser alguém que chega e vai embora largando lembranças que não interessam a ninguém: um chato que manda notícias. E as notícias chegam, como que de supetão. Elas chegam como os borrões de uma pintura moderna mas que têm um milhão de poesias escondidas em suas entre-cores.
E a alma está aberta para essas chegadas; para a chegada do inverno, para a chegada das flores, para o brilho singular do sol e para os galhos que servem de plano de fundo para o diário úmido nos dias de tempestade. Chegam todos abraçando as almas que os acolhem como amigos e amores e amores que chegam acalmando almas. Mas não se vê: e se procura uma visão. A escrita é essa visão que foge das mãos de quem procura acalentar as palavras que chegam e que fogem tentando chegar até as mãos de quem caminha até a próxima estação.
(Thay Cosbet)
A gente sempre quer substituir esse nada, mas o melhor talvez seja a sinceridade de continuar sendo nada.
ResponderExcluirAmor é pulsação.
E quantas chegadas!
Pra ficar perfeito, só ouvir mais um "cheguei!" seu, rs
Chega!
Vamos caminhar até a próxima estação.
Beijos e aquela saudade sem espaço
Thay!
ResponderExcluir- algo fica preso em minha garganta, e eu sinto que não conseguiria dizer o que gostaria -
O que posso te dizer é que esse é o texto mais lindo que eu já li de ti. Sério. Com certeza será relido. Me tocou, e me arrepiou. Disse muito do que eu sinto.
Abraço.
Amores, obrigada.
ResponderExcluir