(In)felicidade clandestina: clari(ce)ei-me
Pudera a felicidade ser um instante de um momento? Pudera passar tão rápido? Mas e se o instante parecer uma vida inteira, passando já quando agora se passou? Como aquele que passou e quando passou já havia passado no pensamento? Sento-me à esquerda do tempo, ele corre d’outro lado que não o meu. Não sei lidar com relógios. Não sei responder à perguntas. Não sei nada mais que fazê-las. Não quero outra identidade: quero esta – mas que é d’outra. Como é difícil fugir do instante – ele me engole como os relógios da vida, como o tempo físico das coisas, como a inquietude do ser que passa como o tempo e como o vácuo, exprimindo até as pedras. As pedras são exprimidas no vácuo eqüidistante da alma. Oh, alma fugidia! Procuras nas palavras o que não vês nos gestos! E o que é isto? É fuga inteligente. É fuga vadia! Fuga exigida e existida! Ah, alma! És uma névoa lívida voando no vento das sombras do dia! O instante me possui... E quero fugir dele, pois ele me escapa. É como a onda não saltada, como a bolha não estourada. É parecido com um amor estrangeiro, é repetido como uma rotina errante. O instante é o meu erro. Minha escolha. O instante é o meu capote de chuva e a minha cova que flutua. O agora é isso e aquilo e são os meus dedos que escapam nos lugares errantes – que não são, agora, os papéis em branco. Agora passou e já é outro que foi e que me escapou como a onda de uma década atrás. Exausta sou por subir na goiabeira e catar cocos. Não que odeie cocos, mas que não os ame. Cocos são ocos como um vidro sem ar – a vela apaga-se. Cocos são fogos de artifícios sem novos anos. Prefiro a água das lágrimas à água do coco. A água lacrimal ao menos tem sal – e sal fino, puro e como o instante. E me aproveito do sal do instante que já não é como o da lágrima raivosa. As lágrimas raivosas dão mais sal porque são de instantes permanentes. Instantes iguais que já não são instantes e que já se foram como instantes. Instantes futuros são instantes de mentira, mas existem no tempo dos que não foram (ainda). E quando forem, serão passado. Porque os restos são fagulhas, iniqüidades passadas que já não me servem e não servem a ninguém. Só dos que se servem – e são restos. São fagulhas de si mesmos incineradas no vazio dinâmico que procede a alma. E esse vazio é a (in)felicidade. É o apagar dos olhos cansados de um dia insuperavelmente distante. É a felicidade de uma vida completamente clandestina de si mesmo.
"(...)Sento-me à esquerda do tempo, ele corre d’outro lado que não o meu. Não sei lidar com relógios. Não sei responder à perguntas. Não sei nada mais que fazê-las.(...)Como é difícil fugir do instante – ele me engole como os relógios da vida, como o tempo físico das coisas, como a inquietude do ser que passa como o tempo e como o vácuo, exprimindo até as pedras."
ResponderExcluirCara, eu gosto tanto quando vc fala do tempo.E faz isso constantemente e bem.
O dia, o momento, o instante, as fagulhas, o que ficou,o século, a vida inteira.
Você não tem que apagar teu blog. FATO.
Bjo, Thay!
Ai, gardênia, adoro suas palavrinhas!
ResponderExcluirOutro beijo.
Gardênias e begônias!
ResponderExcluirO fluxo de consciência sempre a desmitificar verdades universais. Exceto uma impressão implicante: deixa os côcos em paz!
Mas o instante é mesmo tão complicado e transitório, como água escorrendo entre os dedos. Quem consegue dominar?
A felicidade mora no instante? Nisso que não dominamos? A felicidade, desse modo, não nos pertence? Sim, clandestina.
Não se desapegue dos pensamentozinhos, Thay.
Fran
"Será que você passa pela vida, ou ela...
ResponderExcluirque passa por você diante dela?"
nem queira saber de onde veio esta frase hauhauhau
um beijo Thay!