Cartas de Tomas à Lucis (Carta 1nica)
Carta I – Teus olhos, Lucis
Como lâminas negras, seus cabelos esvoaçavam-se em minha pele branca. Senti meus pêlos enrijecerem-se e meus membros também. Seu corpo era belo e moreno, e seus olhos de um negro castanho. Seus cílios endurecidos por uma bela maquilagem escura e boca suavemente avermelhada de um vermelho (também) negro e forte.
Olhei-me no espelho e vi o espectro que ainda era. Sua lembrança era branda em meus olhos - via neles a tristeza de não mais tê-la. Arrumei meu cabelo, perfumei-me, sai.
Na rua, caminhava ao som de meus sapatos tocando o chão molhado pela chuva que já se fora. Ainda uns resquícios, um pouco de frio, um leve vento e uma belíssima lua irradiando o céu escuro de mais uma sexta-feira em sua ausência.
Cheguei ao bar - aquele que sempre freqüentávamos. As mesmas pessoas de sempre. E eu sozinho. Sentei-me na primeira mesa que vi; alguns camaradas me cumprimentaram. Pedi a mesma bebida, com a mesma fragrância e ela me lembrava você. Toquei os lábios no copo, e sua gélida lembrança, deitada, ali, sozinha e delicada, invadiu meus olhos com lágrimas foscas. Nunca me imaginara sem você - que era tudo. Era-me tudo, e eu, tudo era a você.
Bebi cada gota segurando cada gota de minha emoção melancólica em sua memória.
Teus suaves gestos, rosto macio e tão angelical; dominava-me em seus braços todas as vezes em que eu me sentia só e cansado. Suas palavras de uma doce sensatez e tomadas por um perfume manipulado pelo carinho... Ah, como me fazias falta! Não pelos teus sentidos, mas por tua existência.
Caído em sua tormenta memorial, enxerguei deturpadamente uma bela moça que atropelou meus pensamentos: cabelos amarelados e pele de um branco amarelado. O olhar era distante e fugaz, mas conseguiu encontrar-se com o meu. Era alta, seus seios ainda ultrapassavam a blusa que usava – sutilmente decotada. Sorria um sorriso também fugaz – e distante. Sentou-se comigo e lembrou-me de um passado em que a conhecia. Tempos de escola, era ainda um moço jovial e fúnebre. Mas não mais que agora. No entanto, uma funérea sagacidade.
Conversamos sobre todas as lembranças, copos vazios, cabeças cheias demais, sentei-me no carro e levei-a comigo.
Sua lembrança atacou-me.
Senti seus seios tocando os meus, teus lábios quentes beijando-me ferozmente. Seus olhos fechados não deixavam-me ver como afloravam seus desejos naquele instante, naquele agora. Pegava-a pela macia cintura, ouvia seus gemidos, seus delírios, suas estrelas à flor da pele, seu palpitar, voz de frêmitos vulcânicos. Enxergava-te em ti uma musa infernal de estrondosa beleza e esplendorosa luxúria singela; sua face confundia-me as vísceras, ora malditas como o ardor do fogo, ora como caudais ventos que sopravam, frios, sobre um rio brando.
Foi quando percebeste minha tontura e abriste os olhos. Pude ver.
Não eram os teus olhos.
Foi um vômito.
- aplausoa. Muitos -
ResponderExcluirIncrível, Thay. Cada vez me surpreendo mais com seu talento. A última estrofe me sufocou com tamanha perfeição.
Às vezes é preciso tacar fogo nas lágrimas, para fazer com que elas evaporem.
Obrigada, meu bem.
ResponderExcluirObrigada.
Eu agora que fico sem palavras.
:* s2
gostei especialmente dessa parte
ResponderExcluir"Caído em sua tormenta memorial, enxerguei deturpadamente uma bela moça que atropelou meus pensamentos: cabelos amarelados e pele de um branco amarelado. "
ficou incomodamente gostoso de ler
Levei um tapa! estava tudo bem, até a última frase.
ResponderExcluirmaneiro Thay, foi uma leitura muito gostosa.
Até sempre!
Hum, como seria ler isso de forma "incomodamente gostosa"? haha
ResponderExcluirTou encucada agora.
Mas o tapa foi válido até pra mim, Teles.
Obrigada pela presença, gente.
E até sempre!