Ana voltou e cheia de Ódio

Caminhou lentamente pelas estradas da casa que pareciam longas devido à frieza do chão. Era inverno, e o céu ardia em nuvens cinzas. Era inverno, e algo ardia em seu peito. Ardia uma sensação que não era fria, e que na verdade era fria, mas aquecia, de tão fria.
Com o coração cheio de ódio, Ana se liberta de uma tormenta de imundícies e mauzoléus  que trouxe para si. No que enxerga, no que consegue ver, parece estar caindo em cima dela uma avalanche de lava. É um peso enorme que carrega, ainda não se desfez dele. Ana só pensa em coisas simples como matar. Sim. Matar. Matar seria uma boa solução. Mas são muitos, pensa. São muitas cabeças, seriam muitos caixões e enterros, seriam muitas covas desperdiçadas. Mas no que dá deixá-los? Ela não entendia como conseguia sentir tanto rancor e ódio. Matar era o que a faria resolver tudo.
A libertação de Ana não passa de um fingimento de sua consciência, pois é apenas um intuito, algo que ainda não é possível que se consiga. Mas como queria, ela pensa. Como queria destruí-los. Mentes vazias de algo que fosse pura essência, mas cheias de cocaína. No entanto, ela se liberta. Se libertara, então, de tudo o que nunca deveria ter começado. E que na verdade ela já matou, pois não importava muito o tamanho da distância. Era distância. Só sabia que seu coração tinha sido tomado por um ódio de si mesma que não cabia sequer no ódio alheio. Um ódio interminável que causava-lhe vômito; e só vomitava água devido ao tamanho ódio – não comia, nem comeria nada enquanto o tivesse. Ana estava magra e fraca. Ficara sem um mínimo de si mesma por semanas, cantarolando canções de tristeza e agonia. Ela havia perdido uma parte grande de si mesma sentindo tamanha intensidade daquele sentimento, coisa que nunca havia existido consigo, mas que agora fulgurava como uma chama intensa de uma explosão vulcânica. Era quente e fria ao mesmo tempo. Ardia. Ardia com o calor e com a gélida importância.
No entanto, era aquilo que causava-lhe vômito. Aquela consciência de ainda permanecer em todo aquele círculo desvirtuoso de impassível continuidade.
Uma parte dela queria morrer.
E aquilo era tão intenso – aquela morte  - que o seu próprio ser era um martírio de profunda solidez e inquietude. Parecia uma eternidade sendo a mesma. Sentia que anos haviam se passado e que toda ela era sem utilidade. Queria sentir-se no valor. E que complicação era, pensava. “Quero sentir-me alguém”, pensava. Ana não sentia-se. E por isso queria sentir-se.
Outra parte dela queria matar.
E aquela parte de morte alheia – que era a que fazia sentir-se – era a que mais agradava-lhe as horas. Cantarolava o ódio com tamanha dureza, que matava os desvalores que impregnaram sua vida com vigor – um vigor imperfeito e que chegou pausadamente. Um vigor maldito.
Ana ainda acreditava que poderia matar-se. E essa morte que ela esperava e ponderava vagarosamente não era a sua própria, mas a morte da memória. Ana deveria matar a memória, pois era ela quem controlava o seu estado de espírito, era ela quem alimentava seu ódio, sua destreza em equilibrar suas metamorfoses de condições físicas pois eram as que eram controladas pelas emocionais. Malditas emoções, pensava.
O que faria com isso? Não saberia lidar nem com o início de tudo. Era uma pena, pensava. “Gostaria que o tempo pudesse voltar e ser a assassina que sou”.
Mas o tempo não voltaria. Mas andaria, o que ainda era melhor.

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